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MUNDO BOTONISTA

Por Gustavo Martorelli (08/05/2026)

A cultura da desculpa

Quem lê esta coluna com alguma frequência já sabe: o problema quase nunca é a regra. É o comportamento e, principalmente, o que fazemos com ele depois. No futebol de mesa, certos excessos já não chocam. Eles são administrados.

Não se discute mais se estão errados, apenas como conviver com eles. Pensamentos como:


— Deixa pra lá.

— Não vale a pena comprar briga.

— Ele sempre foi assim.


É assim que nasce a cultura da desculpa.

O padrão da falta de educação

Não estamos falando de um episódio isolado, de um dia ruim ou de um destempero pontual. Isso todos podemos entender e absorver. O problema é quando o excesso vira marca registrada e mesmo assim continua protegido. Catimba, grito, cera, pressão, ironia, discussão desnecessária, clima pesado. Nada disso passa despercebido, mas é tolerado E quando alguém se incomoda, o foco muda rapidamente: o problema deixa de ser a atitude e passa a ser o “incômodo” que ela causou.

O teste que nunca falha

Há um critério silencioso no futebol de mesa. Se trata sempre de quem fez e não o que fez. Essa praga não é exclusiva do nosso meio, mas um mal social geral. Se o mesmo comportamento viesse de alguém sem títulos, sem história ou fora do círculo, haveria tolerância ou o discurso mudaria? E se viesse de um amigo seu ou de algum desafeto? A régua não é técnica. É relacional e isso não aparece em regulamento algum, somente na consciência de cada um de nós.

O custo que ninguém assume

Nesta coluna já falamos muito sobre ambiente ruim, de jogadores que somem, de torneios cada vez mais tensos. Nada disso surge por acaso. Quando se desculpa demais, acontece algo previsível:

► Quem exagera se sente autorizado;
► Quem se incomoda aprende a se calar;
► Os novatos aprendem rápido que o silêncio é a melhor adaptação.

Não é conflito que afasta pessoas, é a sensação de que ninguém vai fazer nada.

Chamar o futebol de mesa de jogo de cavalheiros não o torna automaticamente um. Isso só acontece quando o grupo decide que certos comportamentos não serão mais normalizados, mesmo que isso gere desconforto momentâneo. Corrigir não é hostilidade. Limitar não é perseguição. Nomear o problema não é criar crise. Crise é fingir que não existe.

Talvez o maior sinal de alerta seja este: quando o excesso já não causa estranhamento, mas apenas cansaço. Se o jogo depende de desculpas constantes para continuar fluindo, algo está errado. E não é com quem aponta o problema, porque, no fim, o futebol de mesa não perde quando alguém fala demais — perde quando todo mundo aprende a falar menos.

Biblioteca de "Jogo de cavalheiros"
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Gustavo Martorelli

Gustavo Martorelli, conhecido como Guga, nascido em São Caetano do Sul (SP), é federado desde os 12 anos quando oficializou uma tradição de família. Hoje é empresário em Campinas e formado em Direito e Teologia. Passou por ABREVB, São Judas, Meninos FC e Palmeiras. Voltou a defender o Meninos FC em 2023. Morou em diversos países como África do Sul, Senegal, Gâmbia e Jordânia, trabalhando com desenvolvimento humanitário e, além do arroz e feijão, do que mais sentiu falta foi de jogar botão.

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guga@mundobotonista.com.br
(019) 99650-5605

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