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MUNDO BOTONISTA

Por Gustavo Martorelli (08/05/2026)

Cada um no seu quadrado

No Brasil, fama é currículo. Basta um ator ganhar algum destaque para virar comentarista político de primeira linha — pelo menos na própria cabeça. Cantores explicam economia, influenciadores prescrevem remédio, apresentadores de televisão debatem geopolítica com a mesma desenvoltura com que leram meia manchete no celular. O reconhecimento em uma área funciona, por aqui, como um diploma genérico que habilita o portador a opinar sobre absolutamente tudo. E o fenômeno não poupa nenhum ambiente onde convivam expertise e vaidade — inclusive o nosso. É o fenômeno do "especialista em tudo": aquele sujeito que, por ser uma referência consolidada em determinada área, acredita sinceramente que isso lhe confere autoridade irrestrita para opinar sobre absolutamente tudo que orbita nosso meio. Você já encontrou esse personagem. Todo mundo já encontrou.

É o campeão de torneios internos que resolve dissertar sobre a qualidade do feltro ideal como se tivesse passado anos em laboratório testando fibras. É o fabricante de botões consagrado que opina sobre táticas de jogo com a desenvoltura de quem nunca precisou defender uma bola num mata-mata. É o dirigente experiente que explica a tabela de um torneio como se as regras fossem sugestões abertas à sua interpretação pessoal.  O problema não é opinar. Opinar é saudável, é parte do debate, é o que mantém uma comunidade viva e em movimento. O problema é a autoridade fantasma — aquela que não foi concedida por ninguém, mas que o sujeito carrega como se estivesse estampada na testa. Há uma confusão fundamental que precisa ser nomeada: competência específica não é competência universal.

Ser um excelente jogador não te torna um especialista em equipamentos. Conhecer profundamente as regras não te torna uma pessoa competente para organizar um grupo ou time. Ter organizado torneios por décadas não te dá propriedade automática para falar sobre desenvolvimento técnico de atletas. São domínios diferentes. Mapas diferentes. E o fato de você ter o mapa de uma região não significa que você conhece o território inteiro. Isso seria apenas uma questão de ego — irritante, mas relativamente inofensiva — se não fosse pelo efeito colateral mais perigoso dessa história: a formação de opinião alheia.

Quando alguém com nome, com história, com destaque em sua área de atuação acumulados ao longo dos anos abre a boca para falar besteira com segurança, uma parte significativa de quem ouve não tem o repertório necessário para separar o joio do trigo. Não é burrice, é ausência de referência, falta de crivo. Tem gente que não consegue entender que determinada pessoa que tem tanto destaque em determinado campo pode ser (e quase sempre é) um leigo completo quando o assunto muda de mesa. Então o palpite infundado vira verdade. A opinião desorientada vira consenso. O equívoco ganha roupa de sabedoria.

No futebol de mesa, isso tem consequências práticas que vão além do constrangimento alheio em algum grupo de WhatsApp. Quando uma voz influente resolve falar mal de um formato de torneio sem nunca ter organizado nem um bolão de fim de ano, comissões inteiras passam a ser questionadas por gente que nem leu o regulamento. Quando alguém com décadas de jogo opina sobre homologação de equipamentos sem saber distinguir resina de plástico injetado, fabricantes sérios viram réus num tribunal que ninguém convocou. Quando um nome conhecido do cenário resolve explicar o que é "jogo bonito" com a autoridade de quem inventou o esporte, o jogador mais novo engole aquilo como verdade absoluta — e passa anos tentando imitar um estilo que talvez não faça o menor sentido para ele. A desinformação com carisma é infinitamente mais danosa do que a desinformação anônima. Todo mundo sabe filtrar o que vem de lugar nenhum. Quase ninguém questiona o que vem de quem admira.

A solução não é nenhum segredo guardado a sete chaves. Na verdade, é simples assim: cada um no seu quadrado. Você é bom no que é bom. Todo mundo reconhece; ninguém está tirando isso de você. Mas ser referência num assunto não é um free pass para sair opinando sobre tudo que aparece pela frente como se tivesse conhecimento real sobre o tema. O jogo tem limites. A mesa tem bordas, e a sua expertise também. Então, quando o assunto sair da sua área, não tenha vergonha nenhuma em encolher os ombros e soltar a frase mais honesta que existe: — "Eu não sei." Três palavras que não diminuem ninguém. Na verdade, são a marca registrada de quem tem inteligência suficiente para reconhecer os limites do próprio mapa — e respeito suficiente pela comunidade para não inventar sobre o território que não conhece.

Biblioteca de "Jogo de cavalheiros"
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Gustavo Martorelli

Gustavo Martorelli, conhecido como Guga, nascido em São Caetano do Sul (SP), é federado desde os 12 anos quando oficializou uma tradição de família. Hoje é empresário em Campinas e formado em Direito e Teologia. Passou por ABREVB, São Judas, Meninos FC e Palmeiras. Voltou a defender o Meninos FC em 2023. Morou em diversos países como África do Sul, Senegal, Gâmbia e Jordânia, trabalhando com desenvolvimento humanitário e, além do arroz e feijão, do que mais sentiu falta foi de jogar botão.

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guga@mundobotonista.com.br
(019) 99650-5605

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