Painel do Mundo
Por Giovanni Nobile (08/11/2026)
Desistir é uma revelação

Quando Clarice Lispector escreveu que a desistência tem que ser uma escolha e que desistir é a escolha mais sagrada de uma vida, sendo o ato de desistir o verdadeiro instante humano, de acordo com ela. E ela complementou essa frase, dizendo que a desistência é uma revelação. Sinceramente, acho que a Clarice Lispector talvez estivesse arrumando o goleiro para um chute frontal num jogo de futebol de botão. Pensou, olhou o ângulo, arrumou pra lá, arrumou pra cá, ajeitou com a ponta da unha do dedão um milímetro pra lá novamente. Inclinou um pouco, com a justificativa imaginada de que isso talvez pudesse tirar o ângulo do chute do oponente.
Parou.
Pensou.
Começou a ajeitar o goleiro novamente.
Repetiu os movimentos todos.
Olhou o ângulo, arrumou pra lá, arrumou pra cá, ajeitou com a ponta da unha do dedão um milímetro pra lá novamente. Inclinou um pouco e imaginou que, agora, sim, o ângulo estivesse melhor defendido.
Acontece que o chute era frontal. Não tinha muito o que se fazer. O atacante costurou a jogada partindo pela ponta esquerda, deu dois toques na bola, rolou para o outro jogador, que escorou e logo passou ao meio campista que logo vinha, já com o flanco aberto, deu um toque para dominar, outro para ajeitar com maior esmero e passou novamente ao primeiro atacante. Este, recepcionou sem nem gastar um toque. Depois, ajeitou com um passo, dois e, de frente, pediu: "Pro gol". Décimo primeiro toque. De frente. Pronto para marcar. E lá estava, atrás da rede, Clarice Lispector, se preparando para arrumar seu goleiro.
Ela pensou, olhou o ângulo, arrumou pra lá, arrumou pra cá, ajeitou com a ponta da unha do dedão um milímetro pra lá novamente. Inclinou um pouco. E dali, imagino, teve sua revelação sobre a desistência. Ali, com sua meta frontalmente ameaçada, refletiu sobre o que depois escreveu, ao raciocinar que a desistência tem que ser uma escolha e que desistir é a escolha mais sagrada de uma vida, sendo o ato de desistir o verdadeiro instante humano. Assim, ela simplesmente largou o goleiro naquela posição. Desistindo, ela apenas disse: "Vai".

Nota do editor:
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Giovanni Nobile é jornalista e escritor. Joga futebol de botão e já disputou diversos torneios de futebol de mesa em Londrina e em Brasília. É cronista no portal Mundo Botonista e já publicou os livros A galeria de arte da Fifi (2023) e Enquanto o resto sufoca (2024). É especializado em língua portuguesa e literaturas (Mackenzie) e em gestão cultural e indústria criativa (PUC-Rio). Também é colunista de literatura na Rádio UEL FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina, onde se graduou em jornalismo.
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