Painel do Mundo
Por Márcio Bariviera (22/03/2026)
Nossa linda juventude
Antigamente tudo era mais simples. Não éramos santos, mas nossa inocência era mais “leve” diante dos dias de hoje, sem julgar ninguém. Tomávamos banho de riacho e andávamos de cipó depois de fazer os temas de casa na mais perfeita tranquilidade daquelas tardes emblemáticas que, infelizmente, não voltam mais.

O jogo de bola nos campinhos, com as estacas fincadas na grama para serem as traves, era o suprassumo das nossas rotinas. Por vezes os campinhos ficavam a poucos metros dos pés de bergamota. Por falar em bergamota, chegávamos em casa no horário do crepúsculo com cheiro de suas cascas por todo o corpo e ali a acidez fazia contraponto com a doçura de uma época extraordinária, embora fizéssemos nossas mães pensar que elas logo precisariam comprar roupas novas para substituir as guerreiras que nos acompanhavam em nossas aventuras.
A gente jogava Bafo... Aquilo, sim, era diversão de luxo. Lembro de quantas figurinhas duplicadas da Copa de 86 eu adquiri só com a minha habilidade. Sim, eu era bom no Bafo, preciso deixar registrado. E veio agora à minha mente o Casagrande. Foi uma das figurinhas mais difíceis de conseguir. Certamente alguém que esteja lendo isso também acaba de lembrar de alguma figurinha especial, seja conquistada no Bafo, seja na abertura da embalagem de um chiclete Ping-Pong.

Até mesmo assistir futebol na TV não era tão chato como hoje. Não sei se era por causa da idade ou por não ter tanto jogo para assistir como atualmente. Quando um jogo era transmitido, a gente quase o tornava um megaevento, principalmente quando víamos times como o Flamengo do Zico jogar. Nem comparar com um clássico dos dias atuais entre o Al Isso contra o Al Aquilo, da Arábia Saudita, por exemplo.
Quando jogávamos futebol de botão o assoalho era nosso verdadeiro chão. Ganhar um Xalingão de nossos pais era o grande objetivo. Do assoalho para o Xalingão era como você ser um jogador de futebol que rodava pelos campos irregulares de interior e que um dia chegava ao Maracanã. E tudo era bom, independentemente de onde jogávamos. No assoalho de madeira, levemente irregular, tínhamos o nosso morrinho artilheiro. Fazia parte do pacote e ninguém reclamava, já que uma hora você fazia gols com o auxílio dele e em outras horas levava. A banca pagava e recebia, digamos assim.
Aí fomos crescendo, participávamos das festinhas de garagem e a leveza da inocência descia um ou dois níveis. Cada um levava seu prato para compartilhar com os demais e as baladas que saíam do toca-fitas eram o ponto alto, quando Bon Jovi se tornou um ícone importante em nossa fase de transição. Era uma fase em que nos iludíamos ao pensar que a cada namorico estávamos encontrando a mulher da nossa vida. A parte boa é que as memórias ficaram e inclusive se transformaram em crônicas como essa.
A vida foi passando, os cabelos da turma foram caindo ou ficando grisalhos (ou as duas coisas juntas) e o destino provou que o amor de nossa vida não era aquele para o qual Bon Jovi tentava contribuir para que fosse. Talvez a atual “geração de telas” vá achar ridículo jogar Bafo e não vai ter a mínima ideia de que um jogo de futebol com estacas cravadas na grama era muito mais divertido do que com goleiras e redes. E só vai conseguir ver o Flamengo do Zico no YouTube. Menos mal que futebol de mesa boa parte da turma ainda está praticando, com ou sem morrinho artilheiro. Nem tudo está perdido.
Biblioteca de "Botão_raiz"
Reler publicações anteriores de Márcio Bariviera
O gaúcho de Rodeio Bonito, Marcio Bariviera é gerente administrativo do União Frederiquense, clube que disputa a Série A2 do Gauchão, além de assinar uma coluna semanal no jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen-RS. Rock e futebol de botão são duas paixões desde a infância (e se puder dar palhetadas ouvindo Led Zeppelin fica time completo).
....................................
marcio_bariviera@mundobotonista.com.br
(055) 99988-6612




































