Painel do Mundo
Por Gustavo Martorelli (28/09/2026)
A cultura do "sem babacas"

Os
All Blacks são, para muitos, a maior equipe esportiva da história entre as seleções do rugby. Não apenas porque ganharam muito, mas porque descobriram há décadas algo que muitos clubes ainda insistem em ignorar: culturas fortes vencem mais do que elencos fortes. Na Nova Zelândia, vestir a camisa preta nunca foi apenas uma questão de talento. É um privilégio, não um direito. O jogador passa a representar uma história muito maior do que sua própria carreira e, por isso, existe uma expectativa clara sobre como deve se comportar dentro e fora de campo. Entre os princípios que moldaram essa cultura, talvez nenhum seja tão conhecido quanto a “No Dickheads Policy”. A tradução literal é deselegante. A ideia é brilhante.
Os
All Blacks decidiram que nenhum atleta é bom o bastante para ter licença de destruir o ambiente. Se o sujeito é arrogante, cria conflitos, trata mal os companheiros, acredita que está acima das regras ou faz o grupo girar ao redor do próprio ego, pouco importa quantos jogos ele decide. O prejuízo que causa é maior do que o benefício que entrega. É uma lógica curiosa, porque vai na direção oposta do que normalmente vemos. Em muitos lugares, primeiro se pergunta se o sujeito joga muito. Só depois, se houver tempo, alguém se preocupa em saber se ele convive bem. Os
All Blacks inverteram a ordem. Antes de avaliar o talento, procuram saber se aquela pessoa fará o grupo melhor ou pior. Parece uma decisão esportiva. Na verdade, é uma decisão sobre pessoas.
E isso serve para qualquer ambiente. Empresas quebram por causa de gente tóxica. Famílias adoecem por causa de gente tóxica. Clubes também. O futebol de mesa não está imune a isso. Aliás, talvez esse seja justamente o ponto mais curioso. Nosso esporte não movimenta milhões. Não distribui contratos milionários. Não oferece fama nem transforma ninguém em celebridade. Há quem dispute um torneio de botão como se estivesse negociando um cessar-fogo no Oriente Médio. Cada marcação precisa ser debatida como se estivesse em um julgamento. Cada derrota exige um culpado externo: a mesa, a regra, o adversário, a federação, a iluminação, o alinhamento dos planetas. A única hipótese que raramente entra na conversa é a mais simples de todas: o outro jogou melhor. Curiosamente, essas pessoas costumam dizer que são apenas "competitivas". É uma palavra elegante. Muito mais elegante do que "insuportáveis".
O problema é que gente assim quase nunca percebe o estrago que provoca. Talvez até tenha resultado, mas faz outras pessoas perderem a vontade de frequentar o clube e até mesmo pensarem em abandonar o esporte. Aos poucos, o ambiente fica pesado, as conversas diminuem, o prazer de competir desaparece e aquilo que deveria aproximar amigos passa a afastá-los. Os All Blacks entenderam cedo que cultura não é aquilo que está escrito na parede da sede. Cultura é aquilo que um grupo decide tolerar. Quando um comportamento ruim é repetidamente aceito porque "o cara joga muito", a mensagem é clara: vencer vale mais do que conviver. É exatamente aí que um esporte começa a perder sua alma.
Gostamos de dizer que o futebol de mesa é um esporte de cavalheiros e acho uma definição bonita. Só não deveríamos esquecê-la na primeira marcação duvidosa. Ser cavalheiro nunca significou ser perfeito. Todos nós já reclamamos de um lance, já saímos frustrados de um campeonato ou já exageramos nas palavras. A diferença está entre quem reconhece seus excessos e quem faz deles um estilo de vida. Entre quem teve um dia ruim e quem se tornou uma companhia ruim. No fim das contas, quase ninguém se lembrará de quem venceu um torneio qualquer em uma tarde de sábado. Mas todos lembrarão daquele botonista cuja presença tornava o clube um lugar mais leve. E também daquele que conseguia transformar qualquer competição em um ambiente do qual todos queriam ir embora o mais rápido possível. E talvez esteja na hora de fazermos a pergunta que os
All Blacks fazem há décadas. Não se "-Esse cara joga muito?"
Mas: "-Queremos mesmo passar um dia todo de jogo com ele?"
Biblioteca de "Jogo de cavalheiros"
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Gustavo Martorelli, conhecido como Guga, nascido em São Caetano do Sul (SP), é federado desde os 12 anos quando oficializou uma tradição de família. Hoje é empresário em Campinas e formado em Direito e Teologia. Passou por ABREVB, São Judas, Meninos FC e Palmeiras. Voltou a defender o Meninos FC em 2023. Morou em diversos países como África do Sul, Senegal, Gâmbia e Jordânia, trabalhando com desenvolvimento humanitário e, além do arroz e feijão, do que mais sentiu falta foi de jogar botão.
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