Painel do Mundo
Por Márcio Bariviera (18/10/2026)
A hora de guardar os botões

Nos bons tempos de infância, existia um momento no futebol de botão que quase nunca recebia a atenção que merecia. Não era a saída de bola, nem aquele chute de longe que entrava na gaveta e, muito menos, o lançamento de três palmos que deixava o atacante na cara do gol. Estou falando daquele instante em que a partida terminava e começávamos a guardar os botões.
A tardinha havia chegado, alguém ganhou, alguém perdeu e os botões precisavam voltar para as suas caixas. E então começava uma espécie de ritual. Conferíamos se estava tudo ali, da palheta ao cabinho branco de plástico que ficava fixado no goleiro da Gulliver, passando pela bolinha que poderia estar embaixo de uma poltrona. Depois, um por um e de forma empilhada, os jogadores iam deixando o campo, ficando por cima da pilha aquele jogador que se destacou muito mais do que as pipocas que a mãe do anfitrião fazia e que até hoje sentimos o cheiro.
E sempre existia um botão diferente. Não necessariamente o melhor, muito menos o mais bonito. Era aquele que a gente gostava de usar, que era titular absoluto, daqueles que não podiam ficar de fora nem em amistosos. Aliás, se fosse futebol de verdade, talvez ele já tivesse recebido uma proposta de outro clube. A graça é que, naquela época, a gente conhecia os nossos jogadores pelo desenho, pela cor, por estarem levemente trincados e até pelo número do calendário que recortávamos e que não ficava bem colado. E, por que não dizer, acima de tudo, principalmente pela história que cada um carregava.
Talvez seja justamente por isso que guardar os botões fosse muito diferente de simplesmente colocar objetos dentro de uma caixa. A partida terminava, mas a história apenas dava uma pausa. Enquanto os botões voltavam para seus merecidos descansos, nossas cabeças continuavam com o
replay
de cada momento vivido, fosse por um golaço, fosse por aquela bola que tocou na quina do goleiro (aquele nosso amigo da Gulliver, mais acima), tornando-o uma espécie de milagreiro. E, abrindo um parêntese aqui, nem vou me dar ao luxo de debater aquele lance que, segundo quem perdeu, deveria ter sido falta, e muito menos a controvérsia do lado de lá, que afirmava que o gol foi absolutamente legal. Quem nunca participou de um momento como esse, que atire a primeira palheta.
E chegava o momento de, com o perdão da redundância, tirar o Xalingão de campo. De escorá-lo na parede de um quarto ornamentado com pôsteres da Legião Urbana ou do time do coração que fora campeão estadual. Na época, algo normal, até porque amanhã teria mais. Porém, em nossa completa inocência, nunca parávamos para analisar que chegaria o momento em que não haveria o amanhã. Não daquela forma, no caso. Iríamos crescer, encontrar uma namorada, um emprego; os estudos ficariam mais pesados e restaria apenas o saudosismo impregnado em nossas almas. Menos mal que hoje conseguimos amenizar a falta daqueles momentos com crônicas como esta.
Hoje percebo que talvez fosse justamente naqueles momentos que morasse uma das melhores partes do futebol de botão. A gente não sabia, mas estava aprendendo a guardar muito mais do que botões. Guardava partidas, personagens, gols, discussões, amizades e uma quantidade enorme de histórias que, décadas depois, continuariam pulsando dentro de nós. Talvez seja por isso que algumas caixas antigas tenham um valor que nenhum dinheiro consegue explicar. Quem vê de fora abre uma delas e encontra um punhado de círculos de plástico ou de acrílico aparentemente sem importância. Para nós, porém, basta olharmos para um deles por alguns segundos para lembrar de uma casa, de uma mesa ou de escudinhos da Placar amarelados pelo tempo. Coisas absurdamente simples diante da falta que faz, hoje, a simplicidade.
No fim das contas, acho que nunca fomos bons em guardar os botões. A gente guardava, mesmo, era o tempo. E esse, infelizmente, não volta para a caixa.
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O gaúcho de Rodeio Bonito, Marcio Bariviera é gerente administrativo do União Frederiquense, clube que disputa a Série A2 do Gauchão, além de assinar uma coluna semanal no jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen-RS. Rock e futebol de botão são duas paixões desde a infância (e se puder dar palhetadas ouvindo Led Zeppelin fica time completo).
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marcio_bariviera@mundobotonista.com.br
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