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MUNDO BOTONISTA

O professor fertalezense Ronaldo "Malla" Caldas, de 55 anos, é um daqueles apaixonados pelo futebol de mesa forjados numa mesa Estrelão. Adepto do "do it yourself", hoje ele faz suas próprias mesas - e as batiza como Maria Bonita. São nelas que ele, não apenas treina, mas também transmite o amor pelos botões às filhas, ainda crianças. Ronaldo é um atleta da Federação Cearense de Futebol de mesa desde 2008 na qual defende o Vozão (Ceará Sporting Club). Ele usa essa a tribuna do leitor para nos contar sobre a improvável paixão de um cearense pelo Grêmio, de Porto Alegre, e o que o futebol de botão tem a ver com essa história.   

Ei, cara, você é gaúcho?

Por Ronaldo Caldas  (29/03/2026)

— Ei, cara, você é gaúcho?

Essa pergunta já me fizeram dezenas de vezes. Talvez porque eu não tenha um fenótipo tipicamente alencarino, não fale com sotaque “cearês” carregado, mas com certeza estava vestido com a camisa do time dos Pampas Gaúchos, o Poderoso Grêmio Foot-ball Portoalegrense, um amor que começou por acaso, assim bem inocente, acanhado, tímido, mas que foi crescendo com muita admiração, respeito, muitas alegrias e umas poucas frustrações. E o que tem tudo isso com o meu querido esporte? O Futebol de Mesa? Tudo! Minha paixão pelo Grêmio começou por conta de um campeonato de Futebol de Botão e esse episódio vou lhes contar agora. Era início de 1981 e eu e toda a garotada do meu conjunto residencial estávamos de férias escolares e a brincadeira do momento era o futebol de botão. Não demorou muito os garotos mais velhos que tinham 13, 15 anos, por aí, resolveram fazer um campeonato de botão que iria premiar os três primeiros lugares com medalhas de ouro, prata e bronze, tudo bem organizado pelos recém-adolecentes.

— E aí, Ronaldin? Tú vai querer jogar também com o resto da turma? Vai todo mundo daqui do conjunto, ó, vai ser massa! Tu num vai não?

— Vou sim!

Naquele tempo eu tinha um só time de botão, um Palmeiras que ganhei quando tinha 6 anos e emendei na resposta...

— Vou jogar com o Palmeiras...

— Não pode... O Claudinho já se inscreveu e vai jogar com o Palmeiras.

Aí lascou, vou ter que pagar a inscrição do campeonato (Cr$ 5,00) e comprar um time novo (mais cinco cruzeiros) no centro da cidade e a minha mesada era só de míseros dez cruzeiros por mês. Mas é isso aí... A vida só é difícil por conta das dificuldades! A epopeia vai começar... Peguei o antigo ônibus da finada Cialtra da linha Aldeota – Centro, passei por baixo da catraca e o trocador já me olhou feio, mas tudo bem, eu havia esperado o ônibus certo, que era dirigido pelo saudoso Seu Barbosa, que também morava no mesmo conjunto que eu e era muito boa praça. Pois bem, passei pela catraca e fui direto sentar na tampa do motor do velho ônibus. Gostava de ouvir o ronco cansado daquele motorzão com suas trocas de marchas bem cadenciadas e os freios que assobiavam fino e alto toda vez que eram acionados. Eu tinha dez anos e era a segunda vez que eu ia para o centro escondido dos meus pais; a primeira vez foi para assistir a um filme dos Trapalhões no Cine São Luís quando eu tinha oito anos, mas isso é uma outra história... Desembarquei na Praça General Tibúrcio Cavalcante, também conhecida como Praça dos Leões, cruzei a Praça do Ferreira e "embioquei" na memorável Lobrás (Lojas Brasileiras). Ah, como era bom entrar na geladinha Lobrás e subir pela escada rolante até ao departamento de brinquedos (sim, amigos, a Lobrás era a única loja da cidade com ar-condicionado e escada rolante e tratava nosso esporte como brinquedo; eram outros tempos...), onde comecei a busca por minha futura equipe de futebol de botão. Logo fui abordado por uma vendedora que notou que eu estava só e muito interessado nos times de botões.

— Posso ajudar?

— É que eu quero comprar um time de botão.

— Que tal o Ceará?

— Não pode ser, o Ceará é do Emídio...

— E o Fortaleza?

— Esse é do Magá!

— E o Vasco?

— O Vasco já está inscrito com o Dadal.

— Pode ser o Flamengo?

— Não, o Flamengo, o Joaquinho já disse que ia jogar com ele!

— E o Grêmio?

— Grêmio??? De onde é o Grêmio?

— EDSON, a moça gritou, EDSOOOON!!!

— Eu odeio o Edson! Confidenciou-me a vendedora! Fiquei quieto; sabe-se lá o que esse tal Edson fez para essa pobre proletária.

— Diz — respondeu o outro funcionário.

— De onde é o Grêmio mesmo, hein?

— O Grêmio é de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul! Explicou o tal Edson.

— Esse ninguém tem. Deixa eu dar uma olhada...

Eu sacava um pouco de geografia e sabia da distância que separava Fortaleza de Porto Alegre e do Ceará para o Rio Grande do Sul. Nunca tinha ouvido falar desse time, logo não conhecia nenhum torcedor do Imortal Tricolor dos Pampas. E o melhor de tudo, se ele perdesse, ninguém iria ficar me zuando! Pronto, foi amor à primeira vista, aqueles botões azuis com o adesivo do brasão do Grêmio em cima e logo minha imaginação criou asas enormes que me levaram para muitas partidas gloriosas, vitórias suadas, gols incríveis, defesas milagrosas, campeonatos extenuantes, títulos memoráveis. Enfim, tudo que um garoto de nove anos e com cinco cruzeiros no bolso poderia querer, sonhar e comprar!

— Vou levar!!!

Voltei o mais rápido que o velho ônibus Aldeota pôde me levar! Começa então o fatídico Primeiro Campeonato de Botão; tabela minuciosamente elaborada e datilografada (Uau!). E ao fim da primeira fase eu fui eliminado. Sim, queridos leitores, E-L-I-M-I-N-A-D-O!!! Com todas as letras, rodei bem “bunitim”. Só acho que não fui lanterna porque venci uma partida contra o Gustavo, que me pagou um din-din de cajá, e no outro grupo, o Djan perdeu todas e só fez dois gols (ele pagou dois din-dins!).

No ano anterior, o Flamengo, do Rio de Janeiro, havia sido campeão brasileiro, o que o credenciava para a Copa Libertadores da América, e no ano seguinte seria campeão Continental e Mundial com um time excelente! Mas no dia 03 de maio de 1981, Baltazar, o "Artilheiro de Deus", aos dezenove minutos do segundo tempo, matou a bola no peito e a chutou no ângulo esquerdo de Valdir Perez, goleiro do São Paulo, e eu pude gritar gol. Depois que o juiz apitou o final da partida, pude tirar um grande sarro dos meus vizinhos.

— Tá vendo aí... Meu time de botão pode até não ser dos melhores, mas o meu time lá do Rio Grande do Sul é Campeão Brasileiro e vai fazer a mesma coisa que o Flamengo fez esse ano (profetizei)!

Bati na trave! O Grêmio não foi bem na Libertadores, mas foi vice-campeão brasileiro (Flamengo venceu) em 1982, o que garantia vaga para a Libertadores de 1983. Agora vai!!! E foi, o Imortal Tricolor sagrou-se Campeão das Américas e posteriormente campeão do mundo, batendo o Hamburgo da Alemanha! O mundo era azul, meu sangue é azul e meu amor e orgulho também eram azuis! Estava finalmente vingado das chacotas, fuleiragens, discriminações e das vaias tipicamente cearenses!

Daí pra frente, por teimosia, tornei-me um fiel fanático torcedor do tricolor gaúcho, nas suas derrotas e vitórias desconcertantes contra outros adversários improváveis e outros já nem tanto (me recuso a falar do maldito rival gaúcho!, mas só para quem não sabe, a cor da camisa deles começa com "verme", e eu não falo de vermes!). Segui em frente, sempre praticando o Futebol de Mesa, que foi considerado esporte em 1988. Eu já sabia, esse esporte iria me agregar a muitas pessoas bacanas e com almas sempre joviais. Mas isso é uma outra história!

O tal timinho azul que despertou tamanho amor ainda está comigo! Velho, roto, desbotado, com o adesivo de papel se desmanchando, com alguns atletas machucados e um irremediavelmente remendado com durex e guardado em uma linda moldura, exposto na parede do Mercantil Antenas, no Porto das Dunas, sempre pronto para resgatar o menino que há em mim do mundo adulto demais, duro demais, complicado demais, doido demais... É a minha tábua de salvação e um dos meus mais valiosos tesouros!

As ideias expressas nesse texto são de total responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal Mundo Botonista.

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Breno Marques

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