Painel do Mundo
Por: Jonnilson Passos em 01/09/2026
Resgate da memória

Novos e velhos botonistas, atletas, gestores e amantes do futebol de mesa: vamos refletir? Muito se fala sobre como atrair novas gerações para o futebol de botão. Projetos voltados a crianças e adolescentes são fundamentais para a renovação do esporte. Mas talvez seja necessário ampliar nosso olhar: incluir não significa apenas trazer os mais jovens para a mesa, mas garantir que ninguém fique fora dela por causa da idade, de uma deficiência ou de qualquer outra condição. Há canções que atravessam gerações porque transformam cenas simples em retratos da vida. Na música “Eduardo e Mônica”, da banda Legião Urbana, Renato Russo apresenta Eduardo, entre outras características de sua juventude, como alguém que jogava futebol de botão com o avô.
Uma cena pequena, mas cheia de significado: um jovem, um idoso, uma mesa e alguns botões. Duas gerações reunidas por um jogo que não pergunta a idade, mas convida à convivência. Ali existem regras, estratégia, aprendizado, conversa, memória e, sobretudo, pertencimento. Essa imagem nos aproxima da história do atual Instituto Jô Clemente (IJC), antiga APAE de São Paulo, cuja trajetória, iniciada por Jolinda Garcia dos Santos Clemente, dona Jô, em 1961, tornou-se referência na defesa da autonomia e da inclusão das pessoas com deficiência intelectual.
Em anexo, temos uma matéria inspiradora que demonstra o uso do futebol de mesa como estratégia nesse combate, que foi publicada no dia 11/05/2018, no blog oficial do Instituto Jô Clemente, "Envelhecimento, inclusão: um resgate social e de memória por meio do futebol de botão", do autor Ricardo Jabbur Valverde, que é graduado em Educação Física e pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo. Na época, como educador físico do departamento de envelhecimento da APAE de São Paulo, ele utilizava oficinas de jogos, hidroginástica, artes marciais e experimentação circense e nos reafirma o que pensamos sobre essas experiências: Ricardo Jabbur Valverde relatou uma experiência especialmente significativa com pessoas atendidas pelo Serviço de Envelhecimento da então APAE de São Paulo. O futebol de botão foi utilizado como instrumento de inclusão, convivência e resgate da memória. Muitos participantes, então entre 40 e 65 anos, já haviam convivido com o jogo durante a infância e a adolescência, ao lado de pais, irmãos, primos e amigos.
Essa reflexão torna-se ainda mais necessária quando pensamos no envelhecimento. Nossa sociedade ainda convive com o etarismo, que muitas vezes determina silenciosamente que determinadas experiências pertencem apenas aos mais jovens. Mas envelhecer não deveria significar desaparecer socialmente. Limitações podem exigir adaptações; jamais deveriam justificar exclusões. O amigo Cláudio Capela é um exemplo disso. Tem sua saúde limitada, mas joga todas as modalidades locais e nacionais. Um guerreiro! Por isso, a imagem cantada pela Legião Urbana continua tão atual. Eduardo jogava botão com o avô. Talvez o avô ensinasse ao neto. Talvez o neto também ensinasse ao avô. Em algum momento, pouco importava quem era professor ou aprendiz: diante da mesa, eram simplesmente dois jogadores.
No Maranhão também vemos essa troca de gerações quando pais e filhos (Renato, Miguel, Cristiano, Gustavo, Jacob e Gabrielzinho, dentre outros) se encontram diante da mesa. São adversários durante alguns minutos, mas parceiros na preservação de uma cultura esportiva que atravessa o tempo. No esporte, o “versus” representa disputa, não separação. E talvez essa seja uma das grandes lições do futebol de botão. Não precisamos ser iguais para convivermos. Podemos jogar com grau 19 ou 26, dadinho ou 12 Toques; preferir uma estratégia ou outra; chutar de perto ou de longe; aprender rapidamente ou precisar de mais tempo. Podemos ser crianças, adultos ou idosos. O importante é que ninguém seja condenado a assistir de longe.
A música nos trouxe Eduardo e seu avô. O Instituto Jô Clemente mostrou que o futebol de botão também pode recuperar memórias, estimular capacidades e criar oportunidades de convivência. E o envelhecimento nos lembra que inclusão não pode ter prazo de validade. A melhor mesa, a melhor idade, assim como a melhor sociedade, será aquela em que sempre haverá espaço para todos. Porque, independentemente da idade, da geração ou da condição intelectual, motora, financeira e social de cada pessoa, talvez uma das frases mais inclusivas que o futebol de botão possa ensinar seja simplesmente:
— "É a sua vez."
VIVA A INCLUSÃO! VIVA O ENVELHECIMENTO! VIVA A MÚSICA!
VIVA O FUTEBOL DE BOTÃO!
Biblioteca de "Botão com Ciência"
Reler publicações anteriores de Jonnilson Passos
Jonnilson Nogueira dos Passos, um apaixonado pelo Futebol de Botão e um talentoso Mestrando em Educação pela UFMA é também, contador, gestor público, professor, e tutor em EaD destacando-se na formação de tutores e formadores de diversas disciplinas a distância. O comprometimento do maranhense com o esporte vai além das competições; ele acredita no potencial do Futebol de Botão como objeto de estudo e pesquisa, com ênfase em sua história, impacto cultural e aspectos técnicos. No portal Mundo Botonista, o educador aceitou o desafio de explorar as fascinantes relações entre o Futebol de Botão e as Pesquisas Científicas no Brasil assinando a coluna Botão com ciência.
....................................
jonnilson@mundobotonista.com.br







































