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MUNDO BOTONISTA
Tá no filó

Por Giovanni Nobile (13/09/2026)

Com um canalha a menos, salvamos minutos

Futebol de botão combina com tardes de sábado, assim como tardes de sábado combinam com passeios num sebo para garimpar bons livros. Numa dessas tardes sem futebol de botão, estava vagando entre prateleiras, buscando não sei o quê, mas sabendo que, se ao menos achasse um bom livro de crônicas, já seria uma boa pedida. Eis que me deparo, entre uma folha e outra de livros aleatórios, com a seguinte frase de Millôr Fernandes rasgada numa folha de papel usada, talvez, como marca-páginas pelo antigo dono do livro. A frase dizia que, se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos. E que coisa é o futebol de botão senão uma escola formadora de caráter? Que esporte se sustenta com torneios oficiais sem arbitragem senão o futebol de mesa? Sim, eu sei, pode até haver discussão numa jogada acirrada aqui e ali e os debates sobre as regras, mas é fato: é a dignidade dos jogadores que dita o ritmo da partida.

Ainda nesse passeio, fui parar numa estante com livros portugueses e eis que me deparo com a poesia de Matilde Campilho, que ensina que a arte, a poesia, não salva o mundo, mas tem o poder de salvar o minuto. E que isso basta.

E vejam que coisa, se cada jogada de futebol de botão talvez não se assemelhe a verdadeiros versos, que vão se rascunhando a cada palhetada, numa imaginação que faz flutuar os botões pela mesa e, com cada jogada, os jogadores vão ganhando movimento e vida, com passes de trivela, inversões de jogada, matadas no peito, cortes secos, o preparo pro chute, o momento em que todos trancam a respiração, o goleiro salta, ainda que só na imaginação, como num verso que traz vida em cada rima, e não alcança, vendo a bola passar, quase que em câmera lenta, e a morrer no fundo da rede. Uma jogada que salvou o mundo, cheio de guerras? Certamente não, mas uma jogada que foi capaz de salvar o instante. E isso, naquele momento, bastou.

Assim como, na jogada seguinte, o outro jogador acusou ter feito uma falta, esbarrando o botão de seu atacante no zagueiro adversário, numa jogada que poderia levar ao gol de empate. E olha que você nem estava prestando atenção, já que estava olhando para outra direção, onde um bom papo rolava solto. Mas a dignidade do seu adversário não fez salvar o mundo, mas mostrou que ali, à sua frente, não existia um canalha. E um mundo com um canalha a menos e onde podemos salvar os minutos com poesia de jogadas que levam a gols jamais vistos, certamente é um mundo melhor.

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Giovanni Nobile

Giovanni Nobile é jornalista e escritor. Joga futebol de botão e já disputou diversos torneios de futebol de mesa em Londrina e em Brasília. É cronista no portal Mundo Botonista e já publicou os livros A galeria de arte da Fifi (2023) e Enquanto o resto sufoca (2024). É especializado em língua portuguesa e literaturas (Mackenzie) e em gestão cultural e indústria criativa (PUC-Rio). Também é colunista de literatura na Rádio UEL FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina, onde se graduou em jornalismo.

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