Painel do Mundo

Idealizador da Liga Clube FMC ( futebol de mesa de Conquista) BA, formado em gestão do esporte e especializado em treinamento do esporte com supervisão escolar e Metodologia do treinamento, o carioca Felipe Cunha nasceu em 1974 e teve o privilégio de ter sido forjado no subúrbio fluminense onde conheceu, por meio do seu pai, todo o encantamento o futebol de botão. Foi uma paixão à primeira palhetada. Com grande vocação realizadora, muito cedo tornou-se responsável pelas competições do bairro quando, aos 11 anos, ganhou de um tio uma mesa oficial antiga. Pronto, ali nascia o organizador oficial das competições da rua Filomena Nunes e adjacências. Em 2013, já adulto, Felipe aventurou-se no espectro federado pelo Esporte Clube Barreiras na cidade de Saquarema e hoje, além de produzir seus próprios times, conduz um belo trabalho de fomento à regra12 toques em Vitória da Conquista-BA.
O declínio da convivência e o colapso do botão
Por Felipe Cunha (02/04/2026)

Sempre ouvi dizer que o futebol de botão perdeu espaço para o
videogame, mas será mesmo? Acredito que talvez essa tenha sido a primeira
fake news do nosso esporte. Venho amadurecendo uma teoria que desejo compartilhar com vocês, mas, para isso, teremos que voltar algumas décadas. Estamos em meados da década de 1980. Puxem da memória o que vocês mais viam nas ruas dos bairros residenciais? Conseguiram? Dêem um salto no tempo e voltem para a realidade que vivemos hoje. Qual a diferença mais marcante das ruas dos típicos bairros residenciais? Nada? Vou ajudá-los. Onde estão as nossas crianças hoje? Se não estão nas escolas de tempo integral, estão no inglês, no balé, na terapia, literalmente uma agenda de adulto. Mas e na década de 80? Onde nós, adultos de hoje, vivíamos naquela época?
Nas ruas, nossa diversão eram as brincadeiras de rua, queimado, pipa, pião, bola de gude e, logicamente, o nosso futebol de botão. Acontecia na calçada, na garagem da casa da avó de alguém, embaixo de uma árvore em dias de sol escaldante. Era na rua que a nossa socialização acontecia; ali aprendemos muitos dos nossos valores, resolução de conflitos, lealdade, amizades duradouras. Tudo acontecia em torno da rua. O trânsito era livre para os pré-adolescentes da época, e o futebol de botão estava lá presente, forte, competindo com tudo e todos, inclusive o ancestral dos
videogames, as mal faladas casas de fliperamas, os pesadelos dos trocos dos pais. Fala a verdade, quem nunca desviou algumas moedas do troco do pão para, no fim de tarde, jogar
Pac-Man E o nosso futebol de botão estava lá, firme e forte; torneios de garagem, de rua, de bairro, tudo acontecia simultaneamente. E por quê? Porque era o ambiente natural dele; era na rua que se aprendia, se trocava times e até competia.

Na mesma rua, coexistiam famílias com posses, outras de classe média e as que passavam por momentos complicados em termos econômicos. Entretanto, todas as crianças se relacionavam, viviam as mesmas experiências, e isso nos moldou, e lá estava o futebol de mesa. O Brasil começou a se modernizar, bairros reestruturados, as diferentes classes sociais passaram a não ter tanta convivência como antes, surgiram os primeiros bairros emergentes, e o futebol de mesa começou a decair. Afinal, sufocaram seu habitat natural; as crianças não estavam mais lá. Definitivamente, o vilão da história não é o videogame; na verdade, ele é um paliativo, pois alguém entendeu que a sociedade estava mudando e que seu ancestral (fliperama) ia perdendo força também. Com isso, vieram os primeiros consoles domésticos com a mesma tecnologia, que outrora era acionada por fichas compradas em balcões. Mas e o nosso futebol de botão? Foi sendo esquecido de ser propagado; a falta de leitura da mudança social foi o grande gargalo. Quem conhecia, quem praticava, talvez não tenha sentido tanta diferença assim, mas essa desatenção, de não termos feito a leitura correta na época, ocasionou a diminuição de adeptos da nossa modalidade. Meu falecido pai sempre me ensinou que “quem não é visto, não é lembrado”, e foi literalmente isso, na minha opinião, o que ocorreu.
Hoje, passamos por uma nova mudança social. Estamos convivendo com uma geração que tem seus próprios códigos, sua própria maneira de enxergar o mundo. É preciso abrir passagem, ouvir, dialogar na língua deles, entender para poder vender a maravilha que é o nosso esporte, nossa cultura. Não de uma forma engessada, mas sim permitindo que eles também se expressem à sua própria maneira. Afinal, o esporte será herdado por eles. Precisamos aprender a falar para fora dos nossos muros e, para isso, eles são necessários. Um exemplo disso é que aqui na FMC o responsável pela gravação e edição das nossas redes sociais é um menino de 18 anos. Eu apenas direciono, dou as coordenadas e ele me mostra o trabalho pronto, do jeito dele, da geração dele. Isso gera protagonismo. Para fazer algo pelo futebol de mesa, nem sempre a pessoa precisa se debruçar sobre uma mesa. Hoje, o olhar de ver e de se expressar às vezes fará mais efeito além dos nossos muros.
As ideias expressas nesse texto são de total responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal Mundo Botonista.
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