Painel do Mundo

o blog do
MUNDO BOTONISTA
Botão_raiz

Por Márcio Bariviera (31/05/2026)

Quando Bebeto foi injustiçado

A Copa do Mundo de 1986 aconteceu no México, mas uma parte dela também foi disputada no piso encerado da sala da nossa casa, onde o futebol de botão teve o poder de me transformar em técnico, narrador e dirigente, tudo ao mesmo tempo. Na televisão, o Brasil tinha Sócrates, Zico e Careca, mas, no meu campeonato particular, havia um nome incontestável: Bebeto. Enquanto os jornais discutiam esquemas táticos e convocações, eu já tinha decidido há tempos que ele não apenas seria convocado, mas que seria titular absoluto da Seleção para a Copa do Mundo que eu estava prestes a iniciar naquele chão inesquecível e tão bem cuidado pela minha mãe.

O Bebeto chamava tanto a atenção que até meu pai, que Deus o tenha, por vezes parava de assistir ao Jornal Nacional para apreciar gol atrás de gol do artilheiro daquela temporada. Só eu sabia o quanto aquele plástico redondo da Gulliver, adesivado no vermelho e preto do Flamengo, era iluminado. Minha Seleção Brasileira era um time diferente. Não tinha nem mesmo escudo oficial. Eram botões amarelos, em tamanhos pequenos, médios e grandes, nos quais vinha colada a bandeira do Brasil, como se aquilo bastasse para transformar plástico em patriotismo. Os pequenos eram os laterais ligeiros. Os médios carregavam a responsabilidade da armação e do ataque. E os grandes, mais pesados, eram os zagueiros que sempre impunham respeito. Aliás, era até engraçado quando um deles dividia a bola com um lateral do time adversário que se atrevia pelo flanco do campo. Parecia o encontro de uma jamanta com uma moto. Deixando claro que, no fim, todos sobreviviam.

Eu tinha mais um time daquela coleção, a Alemanha Ocidental, de botões verdes, numa linda pintura acrílica grossa, também com a bandeira grudada em sua face. Fiz alguns amistosos entre eles devido aos botões terem as mesmas características. As peças se destacavam tanto pelos seus formatos que Itália e Argentina se tornaram coadjuvantes, embora, na realidade, naquela Copa, a Argentina... bem, pulemos essa parte.

Bacana, mesmo, era quando havia escanteio para cobrar. Pelo fato de serem botões de altura maior, a gente mirava o atacante bem colocado para tocar “de cabeça” e a bola morrer no fundo da rede. Preciso dizer quem era o atacante? Foram vários amistosos e lá estava o meu Bebeto, deixando a sua marca com a camisa amarela, também, para a alegria do meu pai, que ignorava por alguns momentos o Cid Moreira e contemplava aquela verdadeira máquina de empilhar gols.

O problema é que a vida real, às vezes, não respeita a lógica das crianças. Quando saiu a convocação oficial e ele ficou de fora da Copa, lembro da tristeza sincera que senti. Não era apenas um jogador ausente, era o herói dos meus campeonatos, o goleador que decidia finais naquele meu chão inesquecível. Eu tinha apenas dez anos de idade e, mesmo sem mensurar a realidade da ficção, aquilo parecia uma injustiça gigantesca, uma facada no peito. Como alguém podia não convocar o artilheiro do mundo? Pelo menos do meu mundo.

Hoje, olhando para trás, percebo que talvez o futebol de botão tenha ensinado mais sobre paixão do que sobre o futebol de verdade. Ali, a gente convocava quem merecia pelo coração. Não existia empresário, pressão de torcida ou comentarista de televisão. Existia apenas a verdade infantil de quem via um craque fazer gols e acreditava que isso bastava para levá-lo a uma Copa do Mundo. Talvez seja por isso que aquela época tenha marcado de forma tão impactante a minha memória. Porque, entre bandeiras coladas em botões amarelos de vários tamanhos e gols imaginários do Bebeto, existia uma infância inteira pulsando, insistindo até hoje em jogar uma prorrogação eterna dentro de mim. A cicatriz daquela facada no peito permanece até hoje. Mas, felizmente, eu sobrevivi.

Biblioteca de "Botão_raiz"

Reler publicações anteriores de Márcio Bariviera

Marcio Bariviera

O gaúcho de Rodeio Bonito, Marcio Bariviera é gerente administrativo do União Frederiquense, clube que disputa a Série A2 do Gauchão, além de assinar uma coluna semanal no jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen-RS. Rock e futebol de botão são duas paixões desde a infância (e se puder dar palhetadas ouvindo Led Zeppelin fica time completo).

....................................

marcio_bariviera@mundobotonista.com.br
(055) 99988-6612

Posts anteriores 
Por Julio Simi Neto 29 de maio de 2026
Muito além das mesas
Por José Carlos Cavalheiro 27 de maio de 2026
É tudo botão
Por Prof. Inácio Alcântara 25 de maio de 2026
Todas as cores do mundo, Tribuna do leitor
Pluriverso
Por Sergio Travassos 24 de maio de 2026
Por Sergio Travassos (24/07/2026)
Mostrar mais