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MUNDO BOTONISTA
Tá no filó

Por Giovanni Nobile (20/07/2026)

Alerta de informação em primeira mão: estou escrevendo um livro sobre futebol de botão que está sendo editado pela Patuá. E, com essa informação quentinha aos amigos do Mundo Botonista, abro essa nova crônica, que traz uma pitada do que terá também neste livro em rápidos trechos aqui descritos. Nos próximos meses, falaremos mais por aqui sobre o livro, que está sendo carinhosamente ilustrado por Jeferson Carvalho. Dito isso, vamos à crônica de hoje:

Só o lúdico salva

A Copa do Mundo acabou e resolvi abrir minha caixa com a coleção de futebol de botão, que estava no fundo do armário, para relembrar tantas outras Copas que vivi ao ver os jogos e as que imaginei, palhetando jogadas e fazendo história no chão de taco da sala da casa onde eu morava quando tinha oito anos. Botões espalhados pelo chão, ideias começaram a se espalhar pelo ar.

Comecei a pensar que, para mim, o futebol sempre foi uma brincadeira. Seja com a bola nos pés no campinho, na areia, na quadra, na garagem de casa, no corredor que ligava a sala aos quartos, na calçada, chutando o que tivesse pela frente, imaginando dribles, lances e o gol. Dois chinelos, um espaço, algo para chutar e pronto. O maior torneio de futebol do país: cinco minutos ou dois gols, valendo um refrigerante gelado. O maior clássico da história: time com camisa contra sem camisa. E às vezes, nem precisava de algo para chutar. Um tabuleiro, uma mesa e a imaginação sempre foram suficientes. O futebol também sempre foi brinquedo com peteleco (ou dedobol, aquele joguinho em que se dá petelecos com o dedo numa moeda, que no caso era a bola do jogo, até que ela cruzasse a meta adversária), no pebolim (ou totó, como o jogo é chamado em outras regiões do Brasil), no futebol de botão, com as palhetas, avisos de “pro gol” e gritos de “tááá nooo filooó!” ou no futebol Guliver (aquele jogo em que os jogadores de plástico tinham uma “perninha móvel” com uma espécie de pequena alavanca usada para mover a perna desse boneco para que ele chutasse a bola (vocês se lembram disso?) era sempre muito legal brincar de bater falta no tapete que imitava o campo no chão da sala). E por aí vai, inclusive com jogos de videogame, com diversão garantida e muita rivalidade nos jogos com amigos, todos técnicos armando melhores esquemas, às vezes repetidos, com Alejo ou com Roberto Carlos no ataque, para comandar suas jogadas e buscar a vitória. Em todas essas modalidades, a imaginação sempre foi o motor do futebol, seja com os pés ou com as mãos.

Exatamente agora, neste momento em que escrevo esta crônica, é noite de domingo, depois da final de Copa mais tecnológica de todos os tempos, a maior da história em número de seleções participantes, com 48 países que jogaram em arenas modernas nos EUA, no México e no Canadá. Para todos os efeitos, cabe dizer que quem venceu foi a Espanha, que o Brasil foi eliminado ainda nas oitavas de final, que grandes seleções também ficaram pelo caminho, como Inglaterra e França, que foram para uma disputa de terceiro lugar com direito a dez gols, em um 6 a 4 que lembrou um futebol de final de semana, ou como a Alemanha, que perdeu do Paraguai em um jogo emocionante. Tivemos também outras que avançaram e foram grandes sensações da Copa, caso de Cabo Verde, única seleção que nunca perdeu um jogo de Copa do Mundo na história dentro do tempo regulamentar (foi eliminada contra a Argentina, do gênio Messi, na prorrogação). Cabe dizer ainda sobre cenas lamentáveis, como o caso de um país-sede estar em guerra contra outro país participante da própria Copa, a FIFA fazendo vista grossa para esse e tantos outros escárnios dentro de campo (o que dizer do cartão vermelho do time dos EUA revertido depois do pedido-ordem do presidente dos EUA ao presidente da FIFA) ou fora de campo, como com o árbitro que não pode apitar por ter seu visto negado, a seleção que precisava viajar pra longe, já que não pode se hospedar no local dos jogos, e outras cenas lamentáveis. Enfim, foi também essa mesma Copa que entregou momentos que foram muito além do futebol tradicional. Fora dos gramados e na cultura pop (Ronaldinho e Ronaldo em um rolê aleatório no show do intervalo da final com Madonna ou em mais uma música chiclete para a Copa, com Shakira, como já tinha sido em 2010 na África do Sul), o torneio ficou marcado por todos esses e outros fatos interessantes e por muita, mas muita tecnologia.

Essa Copa foi mais rigorosa, com uso do VAR, que é o Video Assistant Referee, mas pouco importa a sigla, o que vale é o gesto do árbitro indo lá ver se foi ou não foi pênalti, gol, impedimento... As checagens quase instantâneas capturaram milímetros que decidiram partidas. E foram além de lances visuais, incluindo também os auditivos. Isso sem falar na câmera com a visão do juiz, com o público observando lances literalmente de dentro do campo. Passamos a poder ver o que sempre imaginávamos: como seria estar dentro de campo, num jogo de Copa? E pronto: nessa Copa, a câmera estava lá dentro, mostrando tudo.

Para além de buscar nosso jeito de imaginar, fiquei observando, ainda, como a Copa, cheia dessa tecnologia, foi tentando imitar o brinquedo. Por exemplo, essa Copa teve a bola Trionda, da Adidas, que precisa ser carregada na tomada por conta de seu sensor interno, que registra dados em tempo real para a equipe de arbitragem, ajudando a tomar decisões ainda mais precisas durante os jogos. A bola que carrega na tomada, como os carrinhos de controle remoto. A bateria que mantém o jogo vivo.

Enfim, ainda que tivesse tudo isso aí que falei e mais um pouco, fiquei olhando meus times de botão espalhados pelo chão da casa e refletindo sobre o que vi nessa Copa que, apesar do tamanho, do dinheiro e dos estádios colossais, de certa forma também provou que o futebol ainda pertence ao universo do lúdico e do inesperado, como um jogo de botão na infância.

Foi aí que pensei sobre os botões improváveis, com todo o charme que os azarões têm nesses torneios e, com isso, passam a ganhar lugar cativo nas minhas escalações imaginárias. Se fosse possível capturar uma estatística, talvez a taxa de crescimento da escalação de goleiros Vozinha nos tabuleiros de futebol de botão pelo mundo seja tão acentuada como foi a taxa de engajamento do público nas redes sociais do goleiro da seleção de Cabo Verde. Sem dúvida, Vozinha é um dos estreantes de mais sucesso, não apenas em Copa, com suas defesas contra Messi ou fechando o gol contra a Espanha, como no futebol de botão a partir de agora. Aos 40 anos, meu goleiro no Xalingão está contratado: Josimar Dias, o Vozinha, uma das maiores sensações do planeta bola.

No futebol de botão, essa seleção de Cabo Verde talvez fosse um time de plástico ou de vidrilhas encarando os botões artesanais de acrílico do futebol de mesa federado.

E mais um parêntese, aqui: sabe que, pra mim, uma situação muito interessante nesta Copa é que foi durante seus jogos que fui mantendo contato com Xico Sá e com Mauro Beting. Ambos os jornalistas, com suas ligações distintas com o futebol, mas que neste período estariam totalmente atarefados com suas atividades. E, ainda assim, me presentearam com textos para este livro. Mauro, por exemplo, em um de seus áudios para mim, confidenciou que escreveu o texto “Conversando com nossos botões”, especialmente para este livro, enquanto acompanhava o treino da seleção da França de Mbappé, que terminou como artilheiro da Copa do Mundo de 2026, superando Messi e alcançando 22 gols em Copas, consolidando sua liderança histórica. No texto, Mauro fala sobre sua relação com o futebol de botão e ressalta que, ali, estava diante do melhor da vida: futebol, e futebol de botão. Já, Xico Sá, que com igual carinho e humildade, deu a honra de suas palavras sobre este livro, assim como Mauro fez, destacou que “talvez o futebol de botão seja a ficção do futebol. Uma ficção em prosa poética”. E não é que até essa Copa viveu também alguns momentos de poesia?

Essa Copa teve o Vozinha e todos os grandes jogos de Cabo Verde, como já mencionei, mas também teve, por exemplo, o menino Keyne Yamal (irmão de Lamine, campeão pela Espanha) fazendo caretas na arquibancada. O futebol na sua essência mais pura e poética, que é uma criança sorrindo. Também teve a coreografia da torcida e dos jogadores da Noruega remando como vikings (o que, para nós, brasileiros, não foi lá uma bela poesia, depois que Haaland e sua turma eliminaram nossa seleção, que se apequenou ao longo dos anos e foi embora da forma como chegou, sem encantar e perdendo de um jeito meio triste, pra dizer pouco). Só que foi essa mesma Copa que também teve o torcedor Lumumba, que ficou imóvel como uma estátua na torcida pela República Democrática do Congo. O futebol como teatro puro, assim como em tantos lances que culminaram no último tango de Messi e na apresentação, talvez, de uma nova dinastia, com a Espanha, com seu bicampeonato, já sendo a seleção que mais venceu Copas neste século. O futebol esteve, então, apresentado como o seu tabuleiro de botão em movimento, com a juventude de Yamal e Cubarsí contra a última dança de Messi. Sem deixar de lado os gols do próprio argentino e do francês Mbappé também, que, mesmo perdendo na decisão de terceiro lugar no dia anterior, deixou sua marca na história ao balançar tanto as redes.

E foi olhando para tudo isso e para meus times de botão espalhados pelo chão, que pensei em como o jogo de botão, assim como o futebol, são eternos porque as peças mudam, mas o tabuleiro e, principalmente, nosso imaginário, permanece.

O campinho no bairro, com uma criança chutando uma bola, sempre renova a esperança. A próxima Copa já lança o olhar ao futuro. A seleção que se planeja para daqui a quatro anos lembra a criança que limpa a mesa e guarda os botões na caixinha de sapatos, já pensando na revanche de amanhã.

A Copa teve muita coisa para a gente criticar, sabemos disso. Desde a FIFA e esse futebol moderno, do qual tenho certo asco, mesmo passando pelo lado político e ainda mais asqueroso da coisa. E, mesmo vivendo num mundo cínico, a Copa de 2026 mostrou que o lúdico resiste. Apesar do tamanho, do dinheiro e dos estádios colossais, a Copa provou que o futebol ainda pertence ao universo do lúdico e do inesperado, como um jogo de botão na infância. Como Xico disse, “em tempos do esporte frio e moderno, precisamos dessa ‘coisa inventada’, como o time espalhado pelo chão do taco”. O futebol, seja na gigante arena da final em Nova Jersey ou na mesa da sala, continua sendo a nossa maior metáfora de esperança: a certeza de que, não importa o placar de hoje, o amanhã sempre guarda o início de um novo jogo. O que temos que fazer é tirar a poeira das caixas dos times de botão no fundo do armário e botar os sonhos para jogo.

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Giovanni Nobile

Giovanni Nobile é jornalista e escritor. Joga futebol de botão e já disputou diversos torneios de futebol de mesa em Londrina e em Brasília. É cronista no portal Mundo Botonista e já publicou os livros A galeria de arte da Fifi (2023) e Enquanto o resto sufoca (2024). É especializado em língua portuguesa e literaturas (Mackenzie) e em gestão cultural e indústria criativa (PUC-Rio). Também é colunista de literatura na Rádio UEL FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina, onde se graduou em jornalismo.

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