Painel do Mundo
Por Gustavo Martorelli (02/03/2026)
Teste de dignidade

No futebol de mesa, todos competimos para vencer. Ninguém acorda cedo num domingo, organiza o material, confere o time e vai para o torneio pensando: “Hoje vim apenas para participar e distribuir abraços”. Não. Nós queremos ganhar. E não há nada de errado nisso. O problema começa quando vencer deixa de ser objetivo e passa a ser obsessão.
Existe uma linha muito fina entre competitividade e desespero competitivo. O jogador equilibrado luta cada bola, mantém a concentração, aceita o erro como parte do jogo. Já o outro… bem, o outro descobre uma habilidade impressionante: ele nunca perde. Ele é “prejudicado”. Pelo rolar da bola, pela falta de iluminação, pela mesa, pelo regulamento, pelo silêncio excessivo, pelo barulho excessivo — e, claro, pelo adversário que ousou jogar bem. Curiosamente, esse mesmo jogador costuma ter uma memória seletiva: quando vence, é talento; quando perde, é circunstância (já falamos sobre isso em outra crônica).
A derrota é um espelho cruel. Ela revela o que a vitória consegue esconder com facilidade. Ganhar é confortável. O aperto de mão é firme, o sorriso é largo, a humildade aparece — às vezes até performática. Mas perder exige autocontrole. Exige maturidade. Exige reconhecer que o outro foi melhor naquele dia. E isso, para alguns, parece ser um sacrifício quase heroico. Um cavalheiro não é aquele que nunca perde. É aquele que não transforma uma derrota em drama turco.
Por outro lado, a vitória também testa caráter. Principalmente quando ela começa a se repetir. Há jogadores que, após duas ou três boas campanhas, passam por uma transformação quase mística: o iniciante vira incômodo, o adversário vira figurante e o torneio vira palco pessoal. A comemoração fica mais teatral do que necessária. A explicação técnica do próprio gol vira aquela palestra não solicitada. É impressionante como alguns conseguem ganhar partidas e, ao mesmo tempo, perder a elegância.
O futebol de mesa, especialmente nas regras sem árbitro fixo, exige algo raro: honestidade declarada. É você quem acusa seu próprio toque. É você quem admite o desvio. Não há VAR, não há câmera lenta, não há comissão disciplinar analisando sua consciência. Só você e sua palavra. E é curioso como a ética parece funcionar perfeitamente quando o lance favorece.
Competir sem perder a honra significa entender que o adversário não é inimigo. Ele não está ali para atrapalhar sua trajetória rumo à imortalidade botonística. Ele está ali porque sem ele não há jogo. A mesa é pequena demais para egos gigantes. No fim, o troféu vai para a estante — e, convenhamos, acumula poeira como qualquer outro objeto. Já a reputação circula pelos clubes, pelos grupos, pelas conversas pós-torneio. “Joga muito” é um elogio técnico. “É um prazer jogar contra ele” é um elogio moral. E o segundo costuma ser mais difícil de conquistar.
Talvez o verdadeiro “jogo de cavalheiros” não esteja no placar, mas na postura. Competir intensamente, sim. Buscar excelência, sempre. Mas sem precisar diminuir ninguém para se sentir maior.
Porque vencer é bom. Vencer com classe é raro. E perder com dignidade — isso, sim, é coisa de cavalheiro.
Biblioteca de "Jogo de cavalheiros"
Reler publicações anteriores de Gustavo Martorelli
Gustavo Martorelli, conhecido como Guga, nascido em São Caetano do Sul (SP), é federado desde os 12 anos quando oficializou uma tradição de família. Hoje é empresário em Campinas e formado em Direito e Teologia. Passou por ABREVB, São Judas, Meninos FC e Palmeiras. Voltou a defender o Meninos FC em 2023. Morou em diversos países como África do Sul, Senegal, Gâmbia e Jordânia, trabalhando com desenvolvimento humanitário e, além do arroz e feijão, do que mais sentiu falta foi de jogar botão.
....................................
guga@mundobotonista.com.br
(019) 99650-5605




































